|
27de
março de 2009

Matriz
do Camaragibe
MPT flagra aliciamento de trabalhadores rurais
Agenciadores
são presos, mas liberados após pagamento de fiança
O
Ministério Público do Trabalho (MPT) em Alagoas
flagrou cerca de mil trabalhadores rurais de Matriz do Camaragibe
e de outros municípios alagoanos, contratados irregularmente
para o corte de cana no Mato Grosso. Eles denunciaram que haviam
sido enganados pelos agenciadores, os chamados “gatos”.
A situação tensa culminou na prisão de José
Ferreira Lins Filho e Cícero Gomes dos Santos, por aliciamento
de trabalhadores, crime previsto no artigo 207 do Código
Penal, cuja pena é de um a três anos de detenção
mais multa.
O
procurador Cássio Araújo chegou a Matriz de Camaragibe,
acompanhado dos auditores fiscais da Superintendência Regional
do Trabalho e Emprego (SRTE), André Sarmento e Marcus Floriano,
e agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF), e
presenciou a manifestação dos trabalhadores em frente
ao fórum da comarca do município. Eles queriam receber
de volta os R$ 120,00, pagos aos agenciadores para a viagem, além
de suas Carteiras de Trabalho (CTPS).
Diante
do tumulto, o procurador, os auditores e o juiz da Comarca, Ygor
Vieira de Figueredo, ouviram o depoimento dos agenciadores que
confessaram ter contratado os trabalhadores, que tinham recebido
o dinheiro, mais de R$ 100 mil, e que estavam com as CTPS. José
Ferreira, dono da empresa Lins e do Ó LTda, que contratou
os cortadores de cana, garantiu que estava com o dinheiro, mas
precisaria de tempo para resgatar e devolver a quantia a cada
um dos trabalhadores.
Foi
dado prazo até a próxima terça-feira (31/03)
para que o dinheiro seja devolvido e as CTPS entregues aos respectivos
trabalhadores. José Ferreira disse que as CTPS estariam
em Medeiros Neto, município localizado no Sul da Bahia,
onde havia aberto escritório de sua empresa. Cícero
Gomes confessou ter 40 carteiras em sua residência, alegando
que aguardava a realização dos exames médicos,
mas autorizou a busca dos documentos.
Ao
analisar a documentação da empresa, a relação
com os nomes dos trabalhadores e observar que não havia
contrato formal nem registro nas CTPS, o procurador deu voz de
prisão aos dois agenciadores por crime de aliciamento.
“Vocês devem saber que não pode haver terceirização
mão-de-obra para o corte da cana. Além disso, aliciar
trabalhadores de um local para outro do território nacional,
bem como recrutar mediante fraude ou cobrança de qualquer
quantia do trabalhador, ou, ainda, não assegurar condições
do seu retorno ao local de origem são crimes previstos
no Código Penal. Por isso vocês estão presos”,
informou.
Os
trabalhadores
Na
sala de audiência do fórum, uma comissão de
trabalhadores também foi ouvida. Eles denunciaram estar
prontos para viajar desde a noite de quarta-feira (25/03), mas
que foram enganados pelo agenciador. “Várias vezes
ele marcou a data para viajar, mas depois desmarcava. A gente
quer nosso dinheiro e nossas Carteiras (CTPS) de volta. O Ferreira
disse que não tinha conseguido transporte para levar todos
os trabalhadores. Além dos oitocentos que estão
em Matriz, tem mais duzentos esperando em Porto Calvo”,
Eles
alegavam não saber ao certo onde iriam trabalhar, mas que
havia a promessa de ganhar mais do que em Alagoas. Achavam que
havia contrato firmado porque chegaram a assinar um papel. Na
verdade, o papel que eles achavam ser um contrato não tinha
valor nenhum. A folha assinada, ou seja, o “contrato de
trabalho indeterminado” fazia referência à
DRT (ex-Delegacia Regional do Trabalho, hoje SRTE) e tinha assinatura
do profissional que havia realizado o exame médico, o que
dava sinais da legalidade do documento.
Só
que os trabalhadores disseram que o médico não fez
nenhum exame. “Ele apenas levantava nossa camisa e, depois,
liberava, sem fazer nenhum exame”. Denunciaram que o profissional
seria médico de uma usina próxima à cidade.
O
procurador esclareceu que os trabalhadores rurais não podem
ser levados para outro estado do Brasil sem o devido registro
na CTPS, sem contrato formal garantindo ida e volta e, principalmente,
sem a certidão liberatória expedida pela Superintendência
Regional do Trabalho e Emprego (SRTE). “Vocês foram
enganados pelos dois agenciadores. O que eles fizeram é
crime e, por isso, serão presos”, informou.
Para
acalmar os ânimos dos trabalhadores, o juiz Ygor Figueiredo
avisou que José Ferreira havia garantido que o dinheiro
e as CTPS seriam devolvidos. Mas os trabalhadores também
reivindicaram o recebimento do salário referente aos meses
que estavam parados, à espera da viagem. “Muitos
pais de família estão passando necessidade, muitos
deixaram o emprego depois da promessa de ganhar mais lá
fora”, disse o trabalhador Givaldo da Silva.
Presos
na PF
José
Ferreira e Cícero Gomes foram levados por policias do Núcleo
de Operações Especiais (NOE) da Polícia Rodoviária
Federal para a Superintendência da Polícia Federal,
em Maceió. Eles foram autuados em flagrante, após
o procurador Cássio Araújo entregar ao delegado
federal Adriano Moreira toda a documentação recolhida
em Matriz do Camaragibe.
Foi
aberto o inquérito de nº 209/2009, mas os dois vão
aguardar o julgamento em liberdade porque o crime é afiançável.
Cada um dos agenciadores pagou R$ 400,00 de fiança. Após
concluído, o inquérito será encaminhado à
Justiça Federal que tem competência para julgar o
caso.
Mais fotos:
|