26
de fevereiro de 2008
Grupo de fiscalização
conversa com os trabalhadores sobre a paralisação
MPT
vai pedir à Justiça interdição
das usinas Laginha e Santa Clotilde
Uma força-tarefa
do Ministério Público do Trabalho (MPT) vai entrar,
nesta quarta-feira (27), com ação cautelar para
interditar judicialmente as usinas Laginha e Santa Clotilde
por desrespeitarem os direitos mínimos do trabalhador.
Procuradores do Trabalho de vários estados realizaram
fiscalizações nas empresas alagoanas e constataram
uma situação de precariedade, que colocam os cortadores
de cana numa condição degradante, análoga
à de escravo, que fere a dignidade humana.
A força-tarefa
da operação Zumbi dos Palmares, formada por nove
procuradores do Trabalho, está atuando em parceria com
o grupo especial móvel, composto por auditores fiscais
do Ministério do Trabalho e Emprego, Polícia Rodoviária
Federal e Polícia Federal.
Por conta
da situação degradante a que os trabalhadores
rurais são submetidos, as duas usinas tiveram o corte
da cana interditado por tempo indeterminado, no último
sábado, até que as empresas cumprissem a determinação
do grupo móvel: providenciar equipamentos de proteção
individual; providenciar instalações sanitárias;
água potável em temperatura adequada; melhores
condições no alojamentos onde vivem os trabalhadores.
Mas
as usinas conseguiram liminar na Justiça Federal e na
Justiça do Trabalho e vão retornar o trabalho
do corte da cana. Em entrevista coletiva, realizada nesta terça-feira,
o procurador-chefe da Procuradoria Regional do Trabalho, Rodrigo
Alencar, lamentou a decisão da Justiça, porque
põe em primeiro plano o fator econômico e deixa
de lado a situação degradante que vive o trabalhador.
“Gostaríamos de contar com a sensibilidade da Justiça,
no sentido de não enfraquecer as decisões tomadas
pela força-tarefa e pelo grupo móvel”, declarou
Alencar.
Balanço
parcial
Durante
a coletiva a força-tarefa fez um balanço parcial
da operação, apresentando dados e imagens de todo
material coletado nas fiscalizações que vão
compor a ação civil pública. Segundo o
procurador do Trabalho e coordenador nacional da área
de defesa do meio ambiente de trabalho, Alessandro Miranda,
o MPT também vai entrar com ação de execução
dos termos de compromisso, assumidos junto à PRT de Alagoas,
e com ação de indenização por dano
moral coletivo.
“As
multas serão altas, mas ainda não vamos falar
em cifras, porque nossa intenção não é
multar, mas sim, que os empresários respeitem os trabalhadores.
Vamos fazer os cálculos após os auditores fiscais
concluírem a análise dos documentos apreendidos
nas empresas”, declarou Miranda.
A maioria
das usinas alagoanas já foi alertada sobre as mesmas
irregularidades e continuam desrespeitando os mínimos
direitos do trabalhador. "No final do ano passado, durante
diversas paralisações e protestos dos trabalhadores,
realizamos fiscalizações, detectamos as falhas
gravíssimas e propomos termos de compromisso, com várias
melhorias nos alojamentos e no campo, mas agora não há
mais prazo, o caminho é a Justiça”.
Os ônibus
que transportam os trabalhadores também estão
irregulares e as ferramentas são levadas no mesmo ambiente
dos cortadores de cana, o que é proibido. Nos alojamentos,
a temperatura é insuportável e, como não
há refrigerador, as carnes e peixes são estendidas
entre as camas; o cheiro de podre infesta todo o quarto; os
banheiros não são limpos e estão cheios
de infiltração, os locais de lavar pratos e roupas
estão cheios de bolor.
A fiscalização
constatou que em alguns locais, os empresários tentaram
‘maquiar’ as péssimas condições,
lavando calçadas e banheiros e limpando os esgotos ao
lado dos quartos. “O mau-cheiro impregna o ambiente e
não é difícil concluir que lá não
é um local digno para os trabalhadores e não adianta
maquiar”, disse o auditor fiscal do Trabalho e coordenador
do grupo especial móvel, Dercides Pires da Silva.
Situação
lamentável
Para Dercides,
é lamentável a postura dos usineiros e da Justiça,
que atendeu aos pedidos dos empresários. Emocionado,
ele declarou que os usineiros não respeitam o trabalhador.
“O que existe é o respeito ao direito de ganhar
mais dinheiro à custa do trabalhador. Isso é lamentável”.
E completou:
“Só queria ver se eles teriam coragem de deixar
um filho nos alojamentos. Claro que não, porque sabem
que quem vive lá está em condições
subumanas, degradantes”.
Confira
fotos da operação:
